A
consciência na verdade é...
A consciência na verdade é um lugar
onde tudo acontece, não é a dona
do lugar. Os que buscam se apropriar de si correm
o maior de todos os riscos: de se tornarem coisas
entre as coisas. Muitas vezes, via apropriação,
nos empenhamos em legitimar nossa própria
história em conclusões, que por
vezes servem à vida tornando-a suportável
e permitem seu novo movimento. Porém devemos
cuidar para que estas conclusões, e as
coerências que daí possam surgir,
não nos retirem do lugar de abertos ou
expostos ao misterioso em nós mesmos. Permanecendo
em movimento, somos livres do grande tirano que
podemos nos tornar. E vivos, somos alimentados
com o que brota no lugar onde também se
insere a consciência e seu contar de histórias
capazes de criar pontes. Um pensamento que nos
abre para isto seria a tola e quase criminosa
frase para nossos dias: Nada a ganhar e nada a
perder.
Fazendo apologia a esta criminalidade: antes de
tudo, simplesmente ser em tudo o que se é
e, desta maneira sim, querer. Parece que hoje
em dia confundimos o que somos com o que queremos.
Estamos sempre um passo à frente, cheios
e não plenos, procurando distrações
e deixando se esvair o tempo, alienados e ocupados
muitas vezes com tudo o que não somos.
É cada vez mais comum o sentimento de pobreza
entre os ricos, mas esta falta não é
suprida na ordem da posse. Instauramos uma consciência
engajada com a produção de um mundo
em muitos sentidos impossível. Deus nos
livre de jamais, em algum dia, nos perdermos de
nosso ser conhecendo as maiores e as menores coisas
sem poder habitá-las, conhecendo a tudo,
desta forma megalômana, revelando o mistério
através de nossa consciência dissociada
ou iludidos por nossos desejos. Esta seria a realização
da finitude da vida e da morte.
Sabemos ou podemos parar? Sábia seria a
estratégia de legitimar a autoria do homem
no território desconhecido de seu recolhimento,
pois como presente na nossa presença, o
espírito que se revela no recolhimento,
brotando nos convida, quem sabe, a trilhar o caminho
da vida e continuar a criar e ao mesmo tempo a
permanecermos abertos, inacabados numa longa jornada.
Uma abertura da ordem do impossível domar.
Fundamentados e legitimados no cartório
deste exposto recolhido do desconhecido que se
revela não podemos declarar a propriedade
de nós mesmos. O que se recolhe faz um
convite a pertencer, com passos cuidadosos, a
um novo lugar, estranhamente também o mesmo,
pois sempre se dá como vida em sua forma
consciente para nós. A impossibilidade
da propriedade é conseqüência
do estado de vir a ser da vida e de seu brotar
indomável e surpreendente.