Texto
I
Gratidão
à vida.
Quando experimentamos profundamente o amor que
flui através de nossos pais, podemos
nos relacionar melhor com os outros e de forma
madura, construir um novo núcleo familiar.
Esse amor que culminou em nosso nascimento,
vigora para além das personalidades,
nos acompanha em tudo que se empenha com a vida,
pois permanecemos fieis à nossa essência
em tudo o que realizamos.
Tudo reverbera na linhagem da família,
vivificando a todos que para ela contribuíram.
Uma postura de gratidão para com a vida,
vinda através da história com
nossos pais e o que os moveu, nos abre fortalecidos
para uma realidade adulta de responsabilidade
e compromisso.
Mauro
Buhler
Texto
II
Responsabilidade - A Pena
Era
uma vez Maria. Mulher considerada boa e caridosa,
um verdadeiro anjo na terra.
- "Ah, Maria com certeza vai direto para
o céu. É tão bondosa, não
pode ver ninguém sofrendo ou com problemas
que logo quer ajudar. Está sempre com
pena dos outros." - dizia o povo da cidade.
Maria tinha soluções para o problema
de todos, chegava até mesmo a se prejudicar
desde que pudesse aliviar o sofrimento dos outros.
O caso mais comentado na cidade era o de sua
prima, Rita. Rita vivia com problema s de dinheiro.
Ganhava, gastava. Não ganhava, mas também
gastava. Os problemas começaram pequenos;
devia um dinheirinho para a colega que vendia
roupas, depois para o cartão de crédito,
para a dentista e assim por diante. Toda vez
corria para Maria em busca de ajuda. Maria,
com pena, resolvia imediatamente seus problemas.
"Coitada da Rita, está sempre com
dificuldades financeiras. Não posso deixar
ela passar por isso." Toda vez era a mesma
situação: Rita era irresponsável
e Maria a acolhia, privando-a de arcar com as
consequências de seus atos. Se Maria dissesse
que estava sem dinheiro, Rita ficava furiosa
com ela: "Se eu me der mal, a culpa é
sua." E lá ia Maria arrumar empréstimo
para Rita. Quanto mais Maria fazia , mais Rita
reivindicava com raiva.
O tempo foi passando e a pena que Maria sentia
das pessoas aumentava na mesma proporção
que a sua idade. Sempre amenizando as reações
das ações de todos.
"Quanta humildade, não deixa que
ninguém sofra". Que mulher piedosa"-
diziam todos.
Como tudo que está vivo morre, Maria
não era excessão. Havia chegado
sua hora de unir-se ao grande mistério.
Após uma grande choradeira entremeada
por comentários do tipo seu lugar ao
lado de Deus é garantido, Maria foi enterrada.
Maria, acorda, você está diante
de Deus. E Ele disse: Maria, o que você
tem a me dizer a seu respeito. Ah, sr. Deus,
acho que mereço ir direto para o paraíso.
Sempre tive pena das pessoas e fiz o possível
para ajudar. Minha prima Rita, então,
nunca deixei de pagar suas dívidas."-
respondeu Maria.
-"Ah, então era você que me
atrapalhava. Eu vivia mandando mensagens para
a sua prima, mas você sempre se metia.
Eu cobrava responsabilidade, mas você
passava a mão na cabeça. Você
não percebia que ela tinha condições
de lidar com seus próprios desafios.
Quanta arrogância! E ainda por cima mascarada
de pena. A mensagem era para ela, não
para você. Com a sua atitude, ela perdeu
a dignidade e a capacidade de resolver seus
próprios desafios. Por que você
achou que estaria mais apta para lidar com os
problemas dela? Eu sou e participo do grande
mistério da vida e dou para cada pessoa
diversas oportunidades de aprendizado, nunca
além da possibilidade que cada um tem,
sempre na medida. A melhor ajuda que você
poderia ter dado, seria ter se unido ao mensageiro
e não se elevado ao papel dele. A única
coisa correta que você poderia fazer,
seria encorajá-la a assumir seus atos,
permitindo que ela pudesse receber o pre sente
que era para ela. Mas você julgou o presente,
achou que ela não seria capaz de dar
conta dele sozinha. Deus, então, levantou
seu martelinho para dar sua sentença.
Maria ficou esperando pelo som da batida de
olhos fechados, mas esta não veio. Ela
abriu os olhos e perguntou:" Ué
Deus, o senhor não vai bater o martelo?
Ah, ah, ah, eu jamais faço isso. Meu
papel não é te julgar, mas sim
te dar a oportunidade de arcar com as suas responsabilidades:
cumprir a sua pena é achar a sua justa
medida. O julgamento é rígido,
não traz crescimento, apenas divide em
culpa e inocência. Eu prefiro deixar você
com a responsabilidade, pois a partir dela você
pode crescer e aprender. Vá, Maria e
torne a sua vida um trabalho. Quanto ao mistério
da vida, comungue com ele em profunda reverência,
pois ele é grande demais para se dar
ao entendimento.
Miriam
Buhler