Texto
I
Negando o ego. Pessoas “sem ego”
e a espiritualidade enquanto fuga da vida.
Muitas
vezes pacientes chegam a mim e falam:"
não tenho ego, eu só faço
o bem ou sou muito espiritualizada”. Pude
perceber que, em muitos casos, procuram refúgio
em alguma imagem de espiritualidade ou idealização
da vida, por medo da própria vida e da
presença de um ego capaz de se empenhar
na mesma. Geralmente são pessoas bondosas
e estão sempre interessadas nos outros,
ajudando, fiéis a alguma imagem capaz
de trazer atenção e aceitação
dos outros. Muitas vezes, negam a própria
raiva e precisam criar situações
extremas para liberá-la. Essa bondade
e interesse custam caro. Essas pessoas também
representam enorme perigo para seus próximos,
pois agem em função de concepções
ideais e raramente vêem os outros. Por
fim, se sentem merecedoras de algo que realmente
não pode ser dado pelo outro e cobram.
Movidos pela raiva agora direcionada para o
outro, perdem a grande oportunidade de crescer
além desta dinâmica fechada que
tende a se repetir como um balão que
infla e esvazia, sempre com perdas de relacionamentos
e decepção quando o outro se nega
a manter as ilusões.
A permanência prolongada deste padrão
resulta em depressão, pois leva ao acirramento
de oposições criadas pela incapacidade
de reunir as próprias partes. Deixando
a pessoa cada vez mais pobre de si e entregue
a um ego dominador. Ironicamente, essas pessoas
estão totalmente entregues aos jogos
do ego.
Ter que se deparar com o que pode trazer real
crescimento requer trabalho com a própria
sombra e aceitação dos sentimentos
que se tornaram negativos por terem sido negados.
Mesmo o ego tem o seu lugar e cumpre um papel.
Mauro
Buhler
Texto
II
“Sou
tão humilde e você também
tem que ser como eu.”
Muitas
vezes presenciei situações onde
pessoas incorporam uma imagem de humildade -
frequentemente ligada à renúncia
espiritual- que não funciona para a própria
pessoa. Usam em sua comunicação,
noções de sacrifício, alegam
que não lhes cabe reconhecimento em sua
identidade e sempre se nutrem das mazelas dos
outros. Criam padrões de comportamento
atrelados a um severo julgamento entre bom e
mau até que acabam se distanciando dos
que não podem cumprir tais exigências.
Estas se colocam demasiadamente acima dos outros
para se relacionarem. Identificadas com santos
ou com mártires, capazes de apontar e
consumir toda a negatividade do mundo em suas
vidas. Vêem muitas vezes nos outros, movimentos
prósperos ou de crescimento que consideram
negativos por detonarem nelas mesmas a sensação
inequívoca de descida; com o despertar
de sentimentos negados e por os afastarem da
troca de pobreza. Em relacionamentos, acabam
por rechaçar os que não partilham
da mesma postura, tornando-os não merecedores
e até mesmo acusando-os de terem se perdido.
Este é um padrão inconsciente
muito comum de identificação com
figuras e histórias antigas, cuja presença
permanente no campo psíquico é
devastadora.
Mauro
Buhler